Modo rapel
A sensação muitas vezes é essa.
Sem remédio eu volto a ser uma florzinha que tá abrindo os botões e que qualquer vento pode levar. Antes eu tinha vergonha de dizer que dependo de remédios para estabilizar meu humor e sentimentos: minha família não aceitava, os namorados achavam meu transtorno e depressão uma frescura, e o restante eu tentava esconder. No final das contas era só eu e eu segurando a barra, sozinha. Hoje não tenho problema algum em assumir que eles me dão qualidade de vida, porque é isso que eles fazem (não é sobre dependência). Contudo, porém, entretanto, todavia, chega um momento que o vidro esvazia, e a maioria das vezes acontece no fim do mês, quando eu não tenho dinheiro pra comprar tudo. É aí que eu entro em modo rapel. Poderia dizer que é literalmente isso.
Todo mundo tem seus altos e baixos, não é? Pois bem, sem minha dose diária eu me sinto descendo, rumo ao meu "baixo", pendurada por uma corda que balança de forma imprevisível e as vezes me faz colidir com rochas, sem possibilidade de eu controlar. E eu tenho uma única saída: descer, sentindo as consequências do caminho.
Aceitar que eu tô descendo as vezes é difícil, porque já experimentei do paraíso que é a estabilidade emocional e gostaria muito que me mantesse sempre sã, ciente dos meus sentimentos, com minha leve apatia, ora rindo à toa, ora despreocupada com as ameaças que poderiam me desestabilizar. O pior é lembrar que, segundo o psiquiatra, descer vai acontecer até mesmo com minha dose, mas não com os danos que eu teria sem medicamento. E então várias abas se abrem na minha cabeça, num passe de mágica. Penso no impensável, no improvável, no inalcançável, no possível e no impossível, na fantasia que está longe do meu alcance e no dano que não existe e pode vir das pessoas que tenho grande afeto - chateações, decepções, frustrações...
Pensando bem, acho que sem minhas doses eu vou descendo de rapel pro inferno e tenho a impressão que sou calorenta porque já conheço aquele lugar como se já tivesse o atravessado. Eu perco a vontade de qualquer coisa, por vezes com grande facilidade. Me sinto muito sozinha, metaforicamente com a visão turva e sem vontade de viver. E medos.
Eu sinto medos, não só um. Medo dessas abas não pararem de abrir e meu sistema travar; de não conseguir dar conta da taquicardia que parece descontrolada; de não conseguir sustentar a máscara que a maioria das pessoas acha que é o meu normal; de machucar as pessoas que estão próximas a mim; de não conseguir levantar da cama - como já pensei várias vezes em não levantar. A posição fetal parece a única coisa que me deixa com sensação de segurança, ou ao menos com sensação de "calma" (bem entre aspas, porque por dentro tudo é um caos).
Continuo descendo de rapel, rumo a um espaço que não sei quanto tempo ainda levo pra chegar e a luz começa a ficar cada vez mais escassa. Não sinto tanta estranheza, a escuridão já é um lugar que eu conheço, mas gostaria bem mais de chegar em terra firme e conseguir colocar tudo no lugar, sem a corda balançar, sem perigo de eu sentir dor ou de me machucar. Foi assim que me senti nos últimos dias, com um pequeno adicional de tpm (que minha dose não dá conta, pela tpm ser hormonal). Eu tentei ser o melhor que pude nas minhas condições, mas até hoje tô sentindo uma ou outra sensação de que minha corda tá balançando, e que posso cair a qualquer momento.
Então eu fico estática, procurando usar meu reflexo pra prever algum machucado, tentando fugir da possibilidade de doer. Nem sempre conseguindo, nem sempre acertando, mas buscando um "chão" pra respirar em paz.
Assinado, Joice.
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