Porta aberta
A alguns dias atrás eu desci do ônibus no lugar de sempre, vizinho à capela do bairro, e vi uma cena que parecia superficial, cotidiana, mas me fez pensar mais do que eu imaginava...
Quando eu morava na minha cidade natal, só tinha uma igreja matriz e ela estava sempre aberta quando eu passava por lá. Raramente eu via ela com a porta fechada, só se fosse na hora de dormir. Mas eu nunca via alguém específico abrindo ou fechando. E numa tarde comum de terça-feira que eu voltava pra casa, vi uma senhorinha abrindo a porta da capela. De imediato um pensamento esquisito me veio na cabeça: independente de qual seja a porta que encontramos aberta, um dia ela precisou que alguém desse o primeiro passo para abrí-la.
Com o passar dos anos o corpo e a mente de uma mulher vão mudando muito a cada ano que passa, e depois dos 30 isso se intensifica mais. Seja hormônio ou nossos "divertidamente", parece que tudo aqui conspira pra se mexer de uma vez só, sem esperar a vez do outro e isso vai mexendo com a imunidade, a tranquilidade, as tomadas de decisão, o equilíbrio emocional, o olhar sobre o mundo... Tudo parece funcionar ao mesmo tempo, e as vezes falta controle e dependendo da situação, as vezes decidimos dar um basta. Eu particularmente acabo por "fechar" as minhas portas, e me recolher nos meus aposentos. A paz de espírito começa a importar mais do que ter a companhia de alguém, de semear o amor; a cama passa a ser o lugar mais confortável que existe no mundo; os fones de ouvido se tornam nossos parceiros de vida, de caminhada e diferente do normalmente a vida é, as trilhas sonoras podem ter letras mais pesadas ou mais emotivas. No meu caso, eu ainda tenho esse blog, que chego a mexer e ler o que eu já escrevi, e acabo ficando impressionada com o quanto eu consegui expressar em palavras tantas portas abertas e fechadas.
Os meus 32 anos vieram com um significado substancial: preciso me cuidar com mais carinho. Se cuidar não é suficiente; eu poderia marcar mil e uma consultas, fazer minhas terapias semanais, tomar meus remédios e ir pra academia com o maior ódio e ira, mas se eu não fizer as coisas com carinho, a sensação é de pura obrigação o tempo todo. Eu não sei se o que é vivo em mim pode ser calculado em peso ou tamanho, mas tudo que eu sou se resume ao meu corpo e a energia vital que nele existe, mas que significado tem em só existir? E o sentir, onde fica? Eu comecei a escrever isso nem sei por qual motivo, mas quando lembro daquela senhorinha de ponta de pé, tentando abrir a porta da capela, lembro as vezes que eu humildemente abri e fechei minhas portas pra alguém entrar. Por menor que seja a porta que esteja fechada em nós, existe uma chave que abre ela, e uma pessoa também. E essa pessoa, é preferível que sejamos nós mesmos, pra entender como lidar com o que/quem está por vir.
Eu sei que a gente pode perder muitas oportunidades na vida por "se fechar", por se recolher, se isolar, querer dar conta de tudo sozinho, mas é tudo tão estranho quando há um singular. Quando a gente vai ao hospital, por mais que demore, há sempre alguém ali pra lhe atender, pra lhe encaminhar pra um consultório ou pra medicação, e alguém pra lhe medicar. Há sempre alguém em todo lugar, então, pra que fechar as portas? E eu me faço essa mesma pergunta... Sei que quando aparece alguém que bate à nossa porta, só nós mesmos podemos abrir, mas e quando essa pessoa bagunça tudo o que estava arrumado dentro da gente? Será que a vida é um eterno "arrumar e bagunçar" e arrumar tudo de novo pra alguém vir e bagunçar de novo?
Espero que você estea entendendo do que estou falando.
Uma porta aberta, por mais que seja um lugar conhecido, teve o seu preço pra estar lá, naquela condição, na qualidade em que está, na disponibilidade que está. Nós somos da mesma forma. Eu sou da mesma forma. Penso todo dia em como ainda há tantas portas fechadas dentro de mim, onde só eu tenho a chave e não dou o direito de pessoa nenhuma saber que elas existem. Ao mesmo tempo, fico torcendo pra que exista alguém que me faça destrancá-las e me liberte daquela escuridão que eu mesma me pus a teste. Eu queria que isso não fosse neurológico, psicológico ou um trauma. Eu queria que fosse só mais uma analogia. De tantas portas abertas, eu ainda tenho muitas fechadas, as vezes por precaução, as vezes por carinho à mim mesma. Mas o que de fato eu queria, era o carinho e zelo de quem decidisse passar pelas minhas portas, da mais bonita à mais decadente, porque sou eu! Todas elas sou eu, e as vezes é tão triste estar lá dentro sozinha, por mais que a solidão faça parte da vida...
De tantas coisas e pessoas que passam pela minha porta, eu espero que o que tem lá dentro seja valorizado tanto quanto a porta que se é aberta. Pode ser o mais simples que for, mas o que tem dentro, é inestimável. E vale a pena cada minuto gasto ali.
Assinado, Joice.
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