11º dia

Dia 16/03 fui pra uma aula de campo da disciplina de Topografia do Prof. Sílvio de Morais, pra Pacoti, a empolgação era total. Quando chegamos lá (só 6 alunos, contando comigo), soubemos que a UECE entrou em quarentena junto com outros órgãos ligados ao Governo do Estado. O Covid-19, mais conhecido como "Coronavírus" chegou no Brasil e já tinha chegado no Ceará, com direito a 3 casos confirmados no domingo à noite.
Eu até achei que a aula de campo ia ser cancelada mas o professor não suspendeu e acho que pra nós (principalmente pra mim) foi o melhor que ele fez, porque foi só um dia mas foi um dia diferente. Quando eu cheguei em Fortaleza, o inferno começou. A minha irmã já tava em casa com a individualidade dela de sempre e que eu resolvi não questionar mais há muitos anos, nem mesmo tentar contato. De cara já cheguei e tomei um calmante porque sabia que ia ter que correr pra resolver as últimas coisas antes que tudo fechasse. Sim, tudo ia fechar. Não ia mais ter aula na faculdade, nem no curso de línguas (Imparh), nem no curso de extensão (IFCE - violino). Pra fechar o combo, minha mãe tava vindo. Na minha opinião, era melhor eu ficar aqui sozinha, já que ela é quase do grupo de risco, mas ela decidiu vir não sei o porquê. Agora as 2 estão aqui e eu tô perdendo o juízo, literalmente.
Eu tenho consulta marcada pro dia 07/04 com Dr. Tony (psiquiatra) e já não vejo a hora de sair de casa pra isso, mesmo que seja pra ver ele mexendo no cabelo dele com aquele jeito desesperado (ou será que é TOC?). Eu devia ter marcado psicoterapia mas não tive paciência pra esperar quando tive a última consulta, então agora eu tô sem nenhuma consulta marcada. O que eu posso fazer? Esperar...
Essa com certeza vai ser uma quarentena de verdade, tipo de 40 dias, porque dizem na TV a todo momento que o "pico" da montanha ainda não chegou, e que as próximas semanas são cruciais, que a gente tem que ficar dentro de casa e não sair pra simplesmente NADA, se possível.
Eu já até discuti com a mãe, ela acha que eu trato ela como um Zé Ninguém porque eu não quero ir pro interior. Ela não entende quando eu fico mal, ela quer forçar eu sair do chão quando eu tô me sentindo mal, quando eu quero ficar sozinha, quando eu quero ficar no meu canto, quando eu PRECISO do meu momento. E minha irmã, eu só queria que ela soubesse que eu sou bem diferente dela e que não é com ignorância que a vida é resolvida, que tudo é resolvido com conversa sim, mas não com uma conversa autoritária.
Infelizmente família de sangue não é a perfeição que todos costumam mostrar na TV. As vezes eu penso que essa quarentena tá servindo pra nos aproximar mais, entretanto eu vejo que a cada dia que passa eu fico mais triste por dentro, mais podre, e que todo dia eu tomo um calmante de manhã ou de tarde, e de noite um remédio pra insônia e acordo no mesmo horário (3h). Quero sempre fugir, sempre me distanciar mais e sinceramente não sei porquê, aí minha mãe diz "não é assim que você vai viver, você tem que manter contato com pessoas". Não adianta eu ficar explicando as coisas pra ela, mas se eu pudesse, diria pra ela que ela não me conhece direito porque ela não dá abertura, que o tempo dela contribuir pra minha vida já passou e que agora eu tenho que lidar com tudo sozinha, que não é ela que vai sustentar mina vontade de viver, que as vezes eu sinto como se eu não tivesse família sentimentalmente, é como se fosse tudo uma formalidade. E só.
Fico pensando se um dia vou ter uma família de verdade, que eu possa amar de sentir no coração o amor, ao menos um cachorro salsichinha aqui em casa, com um emprego que dê pra me sustentar e comprar ração pra ele. Acho que por hora, isso seria o suficiente.
Quanto ao meu lado afetivo... eu nem sei o que dizer sobre ele nessa quarentena. Tem dias que tá  tudo bem, tem dias que me dá uma raiva de tudo e vontade de ficar sozinha. E de fato, tenho a impressão que nasci pra ser sozinha afetivamente, viver viajando, trabalhando, me especializando e vendo onde vou "estacionar".
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Família, se um dia vocês lerem isso, me perdoem, eu não posso forçar meu coração a amar alguém, da mesma forma que eu não posso forçar a odiar alguém. Não é nada por querer. Eu preciso de paz e vocês não me trazem isso, gostaria muito de encontrar uma forma decente de explicar isso pra vocês, as vezes tenho a impressão que minha maior dor é o desgosto de ser a filha que sou, de não ser o que vocês tanto esperam ou dizem de mim. Eu preciso, necessito anseio ficar sozinha, longe, no meu recanto, tentando me situar no mundo, tentar construir minha vida, tentar me descobrir ou até mesmo me redescobrir e isso não é um homem, não é remédio que vai me trazer, é a experiência de ter eu comigo mesma em uníssono.
Mãe, lembra quando a gente canta juntas "mamãe, matei um homem"? Eu me sinto morta todos os dias por dentro, sem saber o porquê de estar viva, quando não consigo ficar bem quando tenho a senhora e a Yara por perto, ou o pai por perto também. Vocês não fazem nada pra que isso aconteça, por favor me perdoem, eu não sei se eu tenho culpa nisso também, espero um dia poder descobrir com um psicólogo/a decente. Psiquiatra só sabe receitar remédio, eles não sabem sobre nossos sentimentos, mas entre o Dr. Rodrigo e o Dr. Tony, eu escolho o Dr. Rodrigo.
Mamãe, matei uma menina, matei uma adolescente, matei uma jovem e mato uma mulher praticamente todos os dias, não sei como mas mato e não vejo mais graça em me reunir com minha família. Eu gostaria de poder dar minha vida como pedido de perdão, mas as vezes acho que não existir seria mais fácil, pra vocês não ficarem tão tristes e decepcionados comigo. Sinto muito por tudo, mas a quarentena tem me feito enxergar isso todos os dias que eu tenho convivido com a senhora e a Yara.
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Não tenho mais aguentado ficar tanto tempo olhando a janela, quando não consigo chorar meu nariz escorre, as lágrimas saem por outros locais. Lavei meu cabelo hoje porque suei pra caramba, ajudei minha mãe na faxina. Aos poucos estou me situando na semana, hoje é sexta-feira, o segundo "sextou" da quarentena. Quando vamos poder sair na calçada? Quando vou poder pegar qualquer ônibus e ir pra qualquer lugar? Quando vou poder ir até a casa do Gustavo continuar estudando violino e querer surtar por que não consigo acertar uma nota? Sinto falta até de ter motivos pra chorar, porque em casa não tenho paz e nem liberdade pra chorar. Por que? Porque minha mãe e minha irmã estão aqui e não me deixam a vontade.
Se eu fosse pro interior com elas, seria bem pior. O que me resta agora, é pedir a Deus que o tempo passe, que a quarentena acabe, que toda vida possível possa ser poupada, que as famílias que perdem vidas sejam confortadas pela palavra e sabe, seria ironia do destino eu não ter conseguido morrer de overdose e morrer de coronavirus... Mas quem sabe?!

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