Cavar

Hoje eu tomei mais uma das minhas iniciativas, levantar ao menos uma vez com o pé direito e pensar que as coisas vão dar certo daqui pra frente, mesmo com tantas outras coisas dolorosas acontecendo (mais uma vez) de uma vez só, fugindo do meu controle. Mas um novo rumo eu posso dar... 
Hoje eu viajei para um bairro e uma rua que eu nunca mais tinha ido, passei por casas que já frequentei e quase até morei. Histórias, várias vidas e histórias envolvidas. Durante todo o caminho de mais ou menos 1h eu fui sentindo cada passo, cada pedra, cada buraco nas calçadas e por onde o ônibus ia passando. Eu olhei para o sol, senti ele na minha pele limpa e riscada. Senti que deveria ir. Era algo necessário e inadiável. Quando perdas e mortes passam pela nossa vida, é tempo de parar e pensar, de sentir a dor e se deixar doer, para o corpo sentir o que a vida proporciona a poucos: a capacidade de sentir. E é algo inevitável. Deixar-se sentir.
Se algo que você faz parece inconvertível, ore. Ore para Deus, para o seu deus, para o que você crê. Ore para o que você acha que existe. Ore para o universo. Seja lá para o que for que você vai orar, vai funcionar. Não espere um momento de desespero. Da mesma forma que agradecemos por um momento feliz, direcionado a algo, direcione seus pedidos e súplicas para isso. Mas não perca as esperanças.
Não sei qual o sentido de eu ter feito essa viagem, no tempo e no espaço, mas a fiz e para não parecer chateada com algo que eu talvez já vinha achando que fosse, tentei tirar proveito das palavras que ouvi da dona Delza. É, dona Delza rs parece até uma "conspiração" do universo. Ela mal entendeu que Geografia é minha vida, que o caos é como um furacão que vem passando na minha vida de leve, mas tentando arrasar tudo e eu com as forças que posso e, como diz minha ex-chefe, tento trancar os dentes para resistir firme. Firme, mas sabendo que por dentro é diferente do que está por fora. Ok, ela me disse que apesar do ser humano gostar de solidão/solitude, isso não faz bem pra saúde dele, seja ela física ou espiritual. Então ela recomendou que eu saia do meu isolamento pessoal e que procure um foco, já que existe algo que está tentando me tirar da linha. As pessoas que eu tanto quero evitar, talvez sejam a peça inicial para que eu consiga me realinhar no universo. Parece com algo que eu já citei na carta que escrevi para alguém especial aqui a alguns dias atrás.
Como pode, o universo querer te detonar para te ensinar algo? Talvez seja óbvio ou lógico ou TÁ TUDO BEM UNIVERSO pra muitas pessoas, mas pra quem (como eu) estava bem desligada do que acontecia e estava focada em uma única coisa/pessoa, tudo parece anormal, fora do conceito, do eixo e até do sentido. Agradeça por ser o universo querendo te ensinar e não uma pessoa, uma pessoa que você achava que era tudo pra você, alguém que você confiava, que você se entregava, que planejava mil coisas e acaba sendo somente você. Eu corri pra dona Delza achando que eu ia ter respostas prontas, mas acabei ficando com mais questionamentos, onde alguns estão se preenchendo no decorrer do dia e outros eu não sei quando vou conseguir preencher, mas tanto faz. Eu vou ter que trabalhar muito para recomeçar, vou ter que "cavar" muito para deixar meu eu verdadeiro emerso, não pensando só no que as pessoas vão enxergar em mim, mas sim no que eu vou ver de mim mesma todos os dias, o que os dias terão de mim mesma.
Por incrível que pareça, me despedindo da dona Delza, eu percorri todo o caminho até a parada de ônibus relembrando o quanto já tive mais acesso àquele lugar antes. Voltei à 2016, pensei como a vida era uma aventura naquela época, como eu estava no começo do bacharelado e lidando com as situações da vida. Eu era uma pessoa empolgada demais, que não tão observadora só se dedicava à outras pessoas. Sei que os meus pensamentos altruístas já me levaram longe demais, a ponto de me machucar, desde anos e anos atrás até hoje. Mas será que eu tenho o direito de recomeçar?
É bom ter pessoas por perto, que tenhamos afeto e elas tenham por nós, assim podemos nos dar as mãos e nos abraçar quando indagações assim nos atingem. Quando nos tornamos fracos, nos tornamos fortes quando decidimos pedir ajuda, pedir para a pessoa ficar. E eu, que ao invés de deixar ficar, distanciei pessoas, será que um dia terei o direito de tê-las de volta? Será que elas vão poder confiar no meu afeto de novo um dia? Eu sei que você nesse momento também tem seus questionamentos pessoais, que te fazem viajar para outro mundo, para outra realidade, para uma realidade construída por você mesmo e que tantas vezes não aconteceu como você planejou na sua cabeça. Você me entende, eu sei que você me entende. Eu sei que eu e você nos daríamos muito bem, nos entenderíamos mais do que nos entendemos aqui. Todos nós temos uma 'doença" que nos afeta e que achamos que devemos enfrentar sozinhos. Mas não precisamos. Nós podemos nos ajudar, nos momentos difíceis e festejar os momentos felizes. Eu sei que você tem medo que esse lado ruim tome de conta da sua vida e você não tenha controle, eu também tenho medo, mas não precisamos passar por isso sozinhos. Nós só precisamos nos permitir, tentar e até mesmo tentarmos juntos com alguém. Escolha (mais uma vez) uma música que você goste e compartilhe comigo, ou com qualquer outra pessoa que você goste e sinta vontade e não tenha medo de o mundo acabar por se dar uma chance. Eu estou tentando não ter medo agora.
O medo faz tantas coisas com a gente... As consequências continuam sendo imedíveis e o coração as vezes aperta por se ter necessidade de medir, para se corrigir. Eu poderia nunca saber, mas hoje eu sei o quanto é difícil desenhar uma linha onde se separa a raiva e o perdão pelas pessoas. Sabe nunca imaginar que iria passar por isso? É o momento de agora, no olho do furacão... Será que eu devo perdoar? Será que continuar alimentando aquela raiva vai me fazer ser mais alguém? Qual dos dois vai me deixar em paz? Será que separar uma coisa da outra vai adiantar? A vida já anda tão bagunçada, então por que não tentar e e enfim, ceder? Eu poderia enxergar a vida de tantas formas, mas o que eu consigo no momento é procurar os óculos que estão na beira da cama para poder ver o que tem escrito no celular. Ontem mataram uma pessoa, um ser humano, em uma câmara de gás (sim, aquilo era uma câmara de gás naquele momento) e eu quase entrei em desespero assistindo aquele maldito vídeo. Quem são certas pessoas por escolherem quem vale mais? Quem são aquelas pessoas pra ditarem quem deve morrer ou não, quem não pode aproveitar um suspiro a mais? Você vê o quão necessário é viver cada dia como se fosse o último, porque ele é único? Isso também me fez pensar demais nas atitudes alheias e principalmente nas minhas.
O desejo de uma estabilidade psicológica, uma bagunça feita pela própria vida, ter que consertar o que fez E o que não fez, cavar o mais fundo possível para se salvar de tantas camadas que cobrem o meu verdadeiro eu, que foi enterrado pelas minhas próprias atitudes enquanto eu tentava salvar o que não podia ser salvo. Se eu penso em perdoar alguém, será que eu posso pensar em me perdoar e poder ter sua mão como apoio? Uma mão que seja, somente uma, só pra eu levantar e agradecer por não ter sido eu a vida ceifada por uma injustiça...
Quando somos injustos com nós mesmos, acabamos matando um pedacinho das nossas esperanças, mas não se preocupe, sempre existe algo ou alguém que possa nos ajudar. Não se martirize. Pare e respire, eu estou aqui. E você, está aí?

Assinado: Joice

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