Precipitação

substantivo feminino
Ato ou efeito de precipitar.
Rapidez de quem age irrefletidamente, sem pensar; irreflexão.
Quantidade de água, neve, granizo, que se deposita no solo em determinado período.

Seria precipitado dizer que o estado de chover ainda me causa melancolia? 
Desde ontem não venho me sentindo muito bem, é muito ruim quando temos planos que são interrompidos sem que possamos contornar a situação com brevidade, para que não venha doer, doer com força. A quadra chuvosa enfim deu as caras. Não era só pra assustar os foliões, era enfim chuva. O que muitos esperam e o que muitos temem também. Chuva.
Precipitações nas ruas, nas janelas, e no meu coração também.
As vezes não consigo ver um motivo lógico pra escrever, mas sinto vontade. Lembro de todas as vezes que em meados de 2015 eu escrevia no meu caderninho uma carta pra minha avó, dizendo que tava com saudades, que gostaria dela aqui comigo e que tenho certeza de que ela compreenderia toda aquela atribulação que eu estava passando. 
Ser só é um estágio da vida que quando atingido, significa a vitória frente a muitos obstáculos atravessados, pois pessoas passam pela nossa vida e nunca sabemos se elas vêm só pra nos fazer bem, as vezes os ensinamentos que nos passam não são os mais confortáveis. Sofremos. Passamos por perrengues que jamais imaginamos. Choramos. Rimos sós e conversamos sós. Estamos sós na vida. Se você não é gêmeo, nasceu sozinho e quando for morrer, será só você ali, sentindo o suspiro ínfimo da vida, se despedindo de uma caminhada que nem sempre foi só flores, mas se despedindo para que outra venha, pois a morte é só uma passagem. Mas voltando ao raciocínio...
Ser ou estar só, é algo que talvez seja até fácil pra mim, porque na minha jornada de vida até aqui eu me senti assim tantas vezes, achando que podia contar com tanta gente que aparecia, mas no final das contas sobrava a única pessoa com quem eu posso contar: eu mesma. Ser/Estar (o famoso verbo to be) só é completamente diferente de se sentir só. E eu tenho me sentido só mais do que o normal ultimamente.
Indo contra todos os sentimentos de resposabilidade que tive ao dispensar qualquer oportunidade de relacionamento afetivo durante o ano passado, esse ano eu esperava que pudesse compartilhar com alguém as várias coisas que a vida me fez experienciar, mas não só elas, as coisas que ainda estão por vir porque há muito o que fazer esse ano e eu já tô dando adeus às férias que me serviram pra entregar trabalhos, fazer novos calendários, traçar planos acadêmicos, fazer pesquisas e pensar um pouco em mim também, ficar grudadinha com minha Ártemis e conversar diariamente com ela dizendo "mamãe vai estudar mas volta pra passear com você, dormir com você, jantar com você". Mas parando pra pensar, não sei se compartilharei minha vida com alguém além da minha Tetê...
Só de escrever isso me vem água nos olhos, até parece uma despedida. E realmente é. As férias não foram só trabalhos. Eu senti muito o meu psicológico melhorando mas também dando sinais que me fizeram entender que eu posso ter o controle de mim! Senti os sintomas do borderline querendo atenção, querendo me sabotar e também me autossabotar, mas hoje tenho o discernimento que sempre quis ter e vejo quando é algo do meu transtorno ou doença falando. Consigo frear, consigo dialogar. Cheguei em um nível que nunca pensei que chegaria e eu só tenho a agradecer meu psiquiatra que é como um pai pra mim, que comemorou comigo o fim da especialização e expressou com felicidade "você está estável, tô muito feliz por você". Eu tô feliz por mim também, apesar de sentir que hoje, exatamente hoje, acordei em estado de crise. Não sei se é tpm, não sei se é a crise existencial que as vezes insiste em dar as caras ou um baixo depressivo, como é comum em quem tem depressão (mesmo controlada).
Uma coisa eu sei, não adianta eu me precipitar, tentar comer tudo o que vejo pela frente, querer gastar com alguma compra. O que posso melhor fazer é: sentir! Sentir a dor; sentir as lágrimas escorrendo pelo meu rosto chegando até o pescoço e secando; ver a chuva lá fora e sentir que aqui dentro de mim também chove mas que não vai ser pra sempre. A vida é feita de momentos, sejam eles planejados ou precipitados. Todos esses momentos caminham para um fim, para logo depois desse fim tudo recomeçar, de uma forma diferente e melhor se assim você quiser.
E sabe do que mais? Até os melhores escritores de romance, de poesias felizes, os coachs e escritores de autoajuda já tiveram dias ruins, de chorar, de querer gritar e não sair da cama, ficar em posição fetal. Todos nós estamos suceptíveis a isso, não é um sinal de fracasso. Pelo contrário.
Você está vivo e mesmo que apático com algum medicamento ou por alguma decepção, você sente! Sente dentro de você e sente lá fora também, seja o calor dos raios do sol ou a água da chuva caindo. E então eu posso perceber que, apesar de muitos anos terem se passado da última vez que me senti melancólica por causa da chuva ou estado nublado do tempo, hoje eu me senti triste. É como se o universo soubesse como eu estou e manifestasse, mesmo que eu não seja digna de que uma cidade com mais de 2 milhões de habitantes saiba que eu estou triste. Mas o universo me entende.

Assinado, Joice.

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