Sába-do(r)
Nas esquinas, o cheiro de peixe podre. No céu, as poucas nuvens se aglomeram e tornam a noite mais cinza, quebrando o pouco brilho que se vê de algumas estrelas. É uma noite de sábado qualquer onde o helicóptero não pára de sobrevoar minha casa. Mais um dia de confronto no estádio, mais um fim de semana pra conta dos que não me agradam...
Por muito tempo eu vi o quanto era difícil admitir que sou uma pessoa feita pra andar "a par" com alguém; acho que hoje já não é tão doloroso assim, apesar da sociedade achar que você tem que se bastar sozinho primeiro pra depois pensar em ter alguém. Isso não me tira da fase de que sozinha eu já fico bem, mas prefiro companhia.
Esses fins de semana meio merdas abrem um buraco negro na minha cabeça e esticam os pensamentos muito além da conta. Os cheiros e as sensações mexem com sentidos além do olfato e audição. Mexem com o coração também.
Não me recordo a última vez que deu certo pensar em coisas fofinhas com alguém; não me recordo se um dia já encontrei com alguém que tenha os mesmos pensamentos que eu e nos encaixamos; não me recordo se um dia já tive esperança que isso acontecesse, isso de encontrar alguém e as coisas darem certo como juntos pensamos...
Eu só queria alguém pra dormir comigo essa noite.
De repente me senti como um gato chutado na rua, com o corpo todo dolorido e sem ter nem pra quê, desânimo. Parece que fui mesmo atropelada por um veículo imaginário de tamanho dobrado do meu corpo. Pega desprevenida, sem aviso, pra sofrer ou pra morrer. Mas de dor eu não morro. Quantos de nós estão doendo agora? Quantos de nós tem os sonhos atropelados pela realidade que exclui as realidades pela existência da liquidez e falta de amor?
Quantos de mim existem por aí? Eu fico pensando se não existem pessoas parecidas comigo, com as mesmas perspectivas de vida, que ficam pensando alto enquanto andam a ponto de falarem sozinhas e os "normais" nas ruas ficam nos olhando. As vezes o mundo é normal demais e não merece nada de nós, pessoas quentes e sentimentais, vivas e dispostas a realizar o que sai fora do padrão de pensamento humano. Pessoas que gostam de se olhar nos olhos por minutos a fio, talvez até horas, sem dizer uma só palavra, pelo simples prazer de se encontrar em alguém e o silêncio ser paz... Pessoas que são expressivas e gostam de se expressar de formas diferentes, que gostam de abraçar e serem abraçadas, cheiradas, acariciadas, conhecidas de fato... Pessoas que gostam de andar de mãos dadas, até mesmo quando não se é necessário andar, mas pelo prazer de que a vida nos dá de ter alguém do lado, é bom segurar a mão e simplesmente ir.
As vezes nem parece que eu sou assim, mas aquele instinto que por um momento aparenta estar ficando sob o tapete da sala, nem está.
Ficam os cheiros das ruas, as faíscas de estrelas sumindo no céu, as pessoas festejando como se não houvesse amanhã, as dores pelo corpo, os pensamentos se estendendo por uma escada que leva ao infinito. E o sbábado acaba em um monólogo de "boa noite".
Que dor no corpo desgraçada. Como eu queria dormir de conchinha hoje...
Assinado: Joice
Que dor no corpo desgraçada. Como eu queria dormir de conchinha hoje...
Assinado: Joice
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