Pelos cantos
Domingo não é um dia muito inspirador pra escrever, entretanto acredito que o vazio desse dia faz com que pensemos melhor (ou não) no que anda acontecendo ao nosso redor.
Preciso dizer que a liquidez desse mundo está me afogando. Ora aos poucos ora rápido demais, esse processo moderno que a vida impôs à sociedade ou simplesmente a sociedade desenvolveu e disseminou pro resto do mundo vai acabando comigo, me deixando submersa, sem conseguir tocar o chão e me levando a um lugar por mim desconhecido, quase que não vendo mais meu local de partida. Gostaria de não me sentir tão só nisso tudo...
Lembrar do passado já não é doloroso, não faz mais parte do meu eu; a dor que se situa em mim é a dor do vazio, da incerteza, da falta de sentimento que as pessoas tem pelo seu próximo, dessa onda de feminicídio desembestada por qualquer lugar. Aos meus amigos LGBTs, eu também sinto a dor de vocês, não é porque sou heterossexual que não sinto dor pelos meus mais chegados, ao mesmo tempo que respeito a dor de vocês, que deve ser maior que a minha quando acontece algo que lhes fere.
Ferida, essa é a palavra que fica aberta dentro de mim a todo momento. Fico me perguntando diversas vezes até onde isso tudo vai dar, até onde vou suportar essa dor, até quando ou quanto eu aguento tudo sozinha, só tomando antidepressivos, fazendo terapias e tentando ter fé. Parece que cada dia que amanhece é um apocalipse novo, onde famílias são destruídas, pessoas somem, pessoas se matam e se escondem e eu vou ficando pelos cantos, enxergando tudo de longe, cuidando da minha própria dor ou sendo consumida por ela até não ser mais vista e nem sentirem minha falta.
Parece um tanto melancólico todo esse enredo, mas a verdade está absurda demais pra eu não escrever sobre ela enquanto eu ainda tenho um pouco de sobriedade.
Hoje abracei a almofada do sofá desejando que fosse o abraço de alguém. Me abracei esperando que a minha força fosse refletida em mim mesma, pra saber que eu comigo mesma podemos ir mais longe, mas tá difícil de acreditar nesse pensamento. Por algum tempo eu penso que tá difícil de acreditar até em mim, nos meus sonhos, na minha esperança que já está chegando ao fim da bateria.
Escrevo por diversos minutos no papel, no caderno, no bloquinho. Paro um pouco e penso sobre estudar pra prova que vou fazer e leio. Logo paro e volto a escrever no caderno. Acredito que seja a única forma terapêutica que tenho a fazer para que posteriormente eu tenha os pés no chão pra conseguir entender o que eu passei naquele momento em que escrevi. Todas as verdades são guardadas no papel, seja em linhas de lápis ou caneta.
Eu vejo tanta coisa e escrevo sobre as tais, mas pouco consigo escrever sobre mim. Me sinto vulnerável e ansiando alguém por perto, pra me ouvir e pra confiar; alguém que seja despido de vergonha de se abrir e de falar sobre si e de se aceitar, mesmo que com seus problemas. Começo a acreditar que essa pessoa não existe e que penso em vão, que mentalizo a existência desse ser de forma utópica, e me sinto só. Eu sei que Deus existe, eu não sinto solidão dentro da minha própria casa e sou feliz pelos que encontraram seu par, ao mesmo tempo que sou infeliz por quem foi enganado por um ser sem coração. Todos terão seu julgamento no final das contas, será que minhas imagens que serão passadas no telão do julgamento final serão felizes? Será que eu vou estar sorrindo? Nós ainda temos motivos pra sorrir hoje em dia?
Eu fico pelos cantos observando tudo, atenta aos sinais, procurando sinais que me façam crer que valha a pena continuar de pé, buscando o que está ao meu alcance buscar e esperando acontecer o que não depende só de mim. Não sou nada poetiza, nem mesmo tenho a pretensão de ser, mas gostaria de saber escrever poesia pra demonstrar essa melancolia que me toma por dentro, a falta de vontade de viver, a necessidade de ser compreendida, de ser ouvida e de dar amor. Amor que talvez eu não encontre nenhum cara pra transmitir.
Que malandra eu sou.
Assinado: Joice
Assinado: Joice
Comentários
Postar um comentário